DUAS IGREJAS GAÚCHAS EM TEMPOS DE BRUTALISMO

Autores

  • Cláudio Calovi Pereira Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil
  • Cicero Alvarez Centro Universitário Metodista, Porto Alegre, Brasil

Palavras-chave:

Brutalismo, Arquitetura: igrejas, Porto Alegre

Resumo

Ao longo da década de 60, as repercussões da arquitetura brutalista no exterior e no Brasil se fizeram sentir na arquitetura gaúcha. Localmente, essa referência toma lugar similar ao que ocupara a Escola Carioca na década anterior.

Dentre as primeiras manifestações de influência do brutalismo no Rio Grande do Sul estão duas igrejas construídas em Porto Alegre, projetadas por arquitetos formados localmente. A primeira é o Centro Evangélico de Porto Alegre (1959), projeto de Carlos e Suzy Fayet. A segunda é a igreja de Nossa Senhora do Líbano (1963), paróquia católica de rito maronita projetada por Emil Bered.

As duas igrejas apresentam a estrutura portante como protagonista da configuração do espaço e da expressão plástica. Ambas são caixas retangulares, com vão transversal vencido por pórticos de concreto, com 20 metros de extensão na primeira igreja e 15 metros na segunda. Na igreja luterana, há uma sequência de cinco pórticos com intervalo de 5,50 metros entre si. Na igreja maronita, há uma sucessão de oito pórticos com intercolúnio de 4 metros. A igreja evangélica tem pórticos de perfil duplo, com pilares/viga de seção "H". Junto ao teto, dois dutos de concreto para ar condicionado correm longitudinalmente, afixados aos pórticos. Já a igreja maronita tem pórticos simples, com vigas de seção mais alta no centro, que enfatizam o eixo do altar, assim como se adaptam à inclinação da cobertura. Os dutos neutralizam um pouco a leitura rítmica dos pórticos na igreja evangélica, acentuando a perspectiva ao altar, enquanto a integridade dos pórticos em sequência na igreja maronita mantém íntegra a percepção celular do espaço.

Nas duas igrejas, os pilares dos pórticos tem seus intervalos preenchidos por muros de alvenaria. No entanto, estes muros não tocam os pilares de concreto, originando um hiato onde estreitas janelas percorrem toda a dimensão vertical das paredes. Três vigas de contraventamento atravessam essas janelas-fita na igreja maronita, enquanto uma o faz na igreja evangélica. Desse modo, a face lateral apresenta o ritmo muro-vazio-pilar-vazio-muro. Texturas, cores e luz acentuam cada um destes componentes verticais em sequência. Na igreja maronita, Bered faz acréscimos sutis. Primeiro, divide a face interna dos muros de alvenaria em dois planos inclinados para o meio. Depois, termina estes muros antes de alcançarem o vigamento da cobertura, permitindo que as janelas verticais sejam unificadas por janelas horizontais no topo.

As caixas tem suas fachadas principais definidas por muros. A igreja evangélica dos Fayet tem a caixa em projeção sobre a rua com muro cego de concreto, onde se previa um baixo-relevo dos quatro evangelistas (atualmente há uma grande cruz de ferro). O acesso à igreja se dá em pátio lateral. Já a igreja maronita tem acesso frontal, o que implica em ter uma face mural perfurada.

O Centro Evangélico é uma encomenda de maior porte, pois abriga em edifício anexo a sede nacional da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil. O conjunto tem dois corpos: à frente, a igreja e, ao fundo, um bloco verticalizado definido por faixas horizontais de combogós. Ao lado da igreja, há uma praça elevada com campanário brutalista. A vista frontal mostra a contraposição da caixa de concreto diante do véu de elementos vazados.

As duas igrejas servem para caracterizar algumas influências do brutalismo na arquitetura gaúcha. A expressão da estrutura enfatiza seu papel modular e rítmico, num todo articulado com planos de fechamento. Há uma sutileza na montagem do envelope formal, que permite a leitura da estrutura ao mesmo tempo independente e integrada aos planos de fechamento. O artigo descreve com atenção as duas igrejas e traça paralelos delas com outras obras eclesiásticas modernas da época, auxiliando na identificação dos temas que caracterizam esse período na região.

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Referências

Xavier, Alberto e Mizoguchi, Ivan. Arquitetura Moderna em Porto Alegre. São Paulo: Pini, 1987.

Marques, Sergio Moacir. Arquitetura moderna brasileira no sul. 1950-1970 (tese de doutorado). Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2012.

Müller, Fábio. O templo moderno 1850-1960 (tese de doutorado). Porto Alegre: PROPAR- UFRGS, 2011.

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Publicado

2025-09-10

Como Citar

Pereira, C. C., & Alvarez, C. (2025). DUAS IGREJAS GAÚCHAS EM TEMPOS DE BRUTALISMO. Seminário Docomomo Brasil: Anais, 10, 1–14. Recuperado de https://publicacoes.docomomobrasil.com/anais/article/view/505